“Falar o quê?” Qual o limite do que podemos dizer no trabalho?

  • maio 10, 2012
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Sorria é uma revista social, correalizada pela Editora MOL e pela rede de farmácias Droga Raia. Lançada em março de 2008, ela tem seu preço de capa – 2,95 reais – 100% doado, descontados os impostos, aoGRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) e ao Instituto Ayrton Senna. Com uma das maiores tiragens de revista do mercado editorial, de 160 mil exemplares bimestrais, a Sorria se tornou também uma das dez publicações mais vendidas de forma avulsa do Brasil (segundo o Instituto Verificador de Circulação, o IVC, pela qual é auditada).

Na edição 25, de Abril/Maio 2012, a revista trouxe o tema da etiqueta nas redes sociais. O que falar e o que não falar nas redes e seu impacto na sua imagem. A matéria tem participação do prof. Marcelo Miyashita. Veja abaixo na íntegra.


trabalhar

Falar o quê?

Qual o limite do que podemos dizer no trabalho? A postura certa para saber quando falar está entre a honestidade e a discrição
Texto: Bruna Fasano // Ilustração: Fido Nesti

Todos precisamos de amigos. Há momentos em que partilhar as alegrias ou dificuldades é a única coisa capaz de tornar a vida mais fácil. Mas ali, no meio do escritório, será que dá para fazer isso? Equilibrando-se nessa linha tênue entre o que pode ou não ser dito no horário comercial, a especialista em análises clínicas Vanessa Magalhães Fernandez, 43 anos, aprendeu a frear a língua. No laboratório onde trabalha, em São Paulo, as jornadas são em duplas, e ela via em sua companheira uma confidente. “Contava tudo, desde como foi o fim de semana às discussões familiares”, diz. Daí para a sua vida virar tema na mesa da happy hour foi um pulo. Quando soube, Vanessa sentiu-se traída e trocou de parceira. Mas o estrago estava feito: “Ela virou chefe do setor. Como sabia meus pontos fracos, usava-os para me cobrar resultados inatingíveis.” A alternativa foi passar para outra área e adotar nova postura.

O que Vanessa percebeu foi que discrição não significa isolamento. É possível ser reservado sem se afastar dos companheiros de trabalho. Afinal, o modo como somos vistos no ambiente profissional depende das informações que revelamos. Marcelo Miyashita, professor de pós-graduação de marketing da Fundação Cásper Líbero, exemplifica: “Se conto que gosto de esportes de aventura, os colegas passam a me ver como alguém preocupado com a saúde e a natureza. Agora, se sou flagrado gritando ao telefone, viro o desequilibrado”. Dentro das empresas, diferentemente dos círculos familiares ou de amigos, não há a oportunidade de conhecer as pessoas por completo. São os fragmentos de informações oferecidos que formam a imagem do outro. “O cuidado com o que divulgamos é necessário para não sermos mal interpretados”, diz o professor.

A prudência é importante, acima de tudo, porque é preciso refletir sobre como as informações chegarão aos chefes. “A forma como as notícias se espalham deve ser a mais respeitosa possível para não haver preconceitos ou distorções”, afirma Maria Tereza Gomes, especialista em gestão de pessoas pela Fundação Instituto de Administração (FIA-USP). E alerta: “Não publique nada nas redes sociais, como Facebook, antes de comunicar pessoalmente o que está enfrentando”. E foi nesse ponto que Michele Queiróz, 29 anos, se atrapalhou.

Para ela, funcionária de uma multinacional, a rede virtual a aproximava dos colegas que conhecia só por teleconferências. “O Facebook de todos ficava conectado para partilhar impressões”, diz Michele, que mora em Campinas. “Uma vez, escrevi dizendo que a rede ajudava a dar um ar mais humano para a organização. Meia hora depois, recebi um e-mail dos Recursos Humanos pedindo que retirasse o comentário e escrevesse um novo, com tom mais amigável. Retirei e bloqueei as minhas atualizações. Me senti acuada.” Agora, só os amigos de fora do escritório têm acesso ao que ela escreve. A lição lhe mostrou o quanto o ambiente corporativo pode ser diferente do pessoal.

Fala que eu te escuto

No entanto, as empresas sabem que partilhar um olhar de cumplicidade no fim do expediente faz toda a diferença. Um dos maiores levantamentos já feitos sobre o efeito das amizades na vida profissional, do pesquisador americano Tom Rath, chegou à conclusão de que quem tem um grande amigo no trabalho é sete vezes mais produtivo, criativo e engajado na empresa. “As relações de confiança são essenciais. Os superiores precisam entender que um membro da sua equipe é, antes de tudo, um ser humano”, aponta Maria Cecília Arruda, professora de ética e marketing da Fundação Getúlio Vargas. Por isso, o caminho franco e aberto de uma conversa é sempre o mais correto. “Doenças, separações, dificuldades financeiras ou gravidez afetam a vida de todos. O colaborador tem de comunicar esses problemas sempre que interferirem na jornada ou exigirem afastamento e compreensão extra”, diz.

Na empresa em que o tecnólogo Márcio Oliveira, de 48 anos, trabalha há sete anos, era ele quem acabava mediando os conflitos entre colegas e o chefe, com fama de linha-dura. “Sou tímido, mas meus colegas me consideram um bom ouvinte e se abrem comigo”, conta. Aos poucos, ele conquistou parceiros no ambiente profissional. E isso foi fundamental quando descobriu que sua mãe estava com uma doença grave. Precisando conversar com o gestor, optou por unir forças com uma colega, que tinha que contar que estava grávida, e pediu uma reunião. “Para nossa surpresa, ele aproveitou para dizer que se afastaria para tratar um câncer. Fiquei tocado. E isso me ensinou que todos passam por fases difíceis, seja lá que cargo ocupem”, diz. O momento foi importante para que a equipe aprendesse que precisa da compreensão do time inteiro. Juntos, seguram a barra nos momentos que fogem ao controle. Perceberam que é entre a discrição necessária e a conversa franca que as pessoas ganham confiança e se sentem participantes da vida e do cotidiano dos colegas. Assim, é mais fácil sorrir todas as horas do dia.

 

Revista Sorria, n. 25, Abril 2012

 

Escrito por : Miyashita Consulting

Nosso negócio é promover e disseminar a prática de marketing pelo caminho da transmissão de conhecimento, aplicado em projetos e treinamentos.

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