É a chance da vida.

Olha como nada é por acaso: revirando uma gaveta achei minha Carteira de Trabalho. E como hoje é Dia do Professor, resolvi procurar o dia exato em que formalmente me tornei um. Foi em 23 de Fevereiro de 1995! Isso mesmo tenho 25 anos de carreira docente.

E também relembrei quanto eu ganhava nesse começo. É isso aí: R$ 4,50 por hora-aula.

Comecei lecionando num colégio na Freguesia do Ó, para alunos do ensino médio, era um curso técnico de Publicidade. Lembro que a cada 2 noites por semana atravessava a cidade na hora do rush com uma vontade incrível para dar aula.

Tinha 23 anos. E estava no meu quinto ano de carreira como publicitário. Já era Diretor de Criação numa agência de porte médio na Vila Olímpia e ganhava um bom salário, peguei o final da era de ouro das agências tradicionais, que tinham boas margens e ganhos.

Era jovem, tinha uma energia tremenda e canalizava tudo para a carreira. Trabalhava 10, 12, 14 horas por dia e me sentia satisfeito dentro do que tinha planejado e das possibilidades que tinha em mãos. Foi rápido o crescimento em poucos anos.

Mas, não me sentia realizado no “alto” dos meus 23 anos.

Sentia a necessidade de ensinar, de ser professor, de ajudar as pessoas com o que tinha aprendido. Sempre admirei os professores que tive e principalmente a abnegação, disciplina e persistência que muitos demonstravam.

Aí um dia o telefone tocou na agência. Era a coordenadora desse colégio procurando alguém que quisesse “ser convidado” para dar aulas de “Introdução à técnica publicitária”. Lembro ainda hoje, a telefonista (existia esse cargo nos escritórios) entrou na sala de Criação e em alto bom tom bradou: “- Alguém aí quer dar aula de publicidade para adolescentes? Tem uma moça no telefone querendo fazer esse convite”.

Abri um sorriso. Pensei comigo, era a chance da vida. Conversei com ela, peguei o endereço e atravessei a cidade.

Levei minha pasta de peças criativas e contei alguns “cases”. Era só o que eu tinha para mostrar. Ela gostou e me contratou na hora. Era sexta-feira e ela me avisou que as aulas começariam na segunda, quando iniciava o ano letivo.

Foi aí que percebi que o convite era uma contratação. Pediu para trazer a Carteira de Trabalho e alguns documentos. Quando cheguei na segunda à noite, ganhei um avental e uma caixa de giz com apagador.

Ela me apresentou ao diretor da escola, o prof. Wellington, aliás o colégio tinha o nome dele. Fomos para o pátio. Imagina a cena: um mundaréu de adolescentes espalhados pela quadra, um palco montado, um microfone e um pedestal.

Aí ele iniciou um discurso, uma mensagem de boas-vindas. Começou a falar dos professores que conhecia, suas histórias e, de repente, olha para mim: “ – Venha professor, se apresente. Queremos conhecer quem é o novo professor da escola.”

Gelei.

Eu não tinha nenhum traquejo, desinibição e técnica para falar em público. Ainda mais para uma quadra lotada. Não me lembro do que falei na época, mas, com certeza, passei vergonha.

Pouco depois tocou um sinal, e todos saíram para suas salas de aula. Me indicaram a minha. Quando entrei, vi que era uma sala de artes, usada na parte da manhã pelos alunos de ensino infantil e fundamental. Cartolinas na parede com desenhos de casinhas, pincéis e lápis de cera, e cadeirinhas.

Lá dentro me aguardavam uns 18 alunos. Era a turma do 1º ano do colégio, adolescentes de 15 anos, a bagunça rolando. Eu era o próprio Sidney Poitier, no “Ao mestre com carinho”.

Aí pensei comigo, era a chance da vida. Comecei a falar, contar histórias, e aí já estávamos rindo. O roteiro que tinha preparado virou uma conversa descontraída sobre o dia a dia de uma agência. As horas passaram voando.

Ao final, estava me sentindo feliz. Alguns agradeceram com palavras e a maioria com os olhos. Foi um senso de gratidão e carinho difícil de explicar. Pronto, estava fisgado.

Voltando para casa, já quase 11 da noite, meio perdido porque não conhecia a região, peguei a Marginal e parei no posto BR que tinha uma loja de conveniência. Peguei algo para comer e fiz lá meu primeiro de muitos “jantares” durante o tempo que segui firme nessa deliciosa rotina. Muito dos 4,50 eu gastei nessa loja.

E foi assim que me tornei professor.

Com o tempo fui aprendendo a ensinar. Compreendi a necessidade do método, do conteúdo estruturado, da boa comunicação e oratória… E também de como é importante saber construir um bom relacionamento e manter boa convivência com alunos, independentemente de qualquer diferença ou diversidade.

Fui aprender também como é a carreira docente, os caminhos, os níveis, e como escalar um crescimento mais rápido dentro das minhas características, vantagens, limitações e escolhas.

Minhas aulas no colégio mantive por 2 anos, tive que fazer uma pausa ao final de 1996. Estava com 25 anos e começando a empreender uma agência, que anos depois se tornou uma consultoria de marketing.

Mas, não consegui ficar sem essa felicidade noturna na minha vida. Aos 28 anos recomecei, como professor universitário em cursos de graduação. E aos 31, em cursos de pós e depois MBA.

Nessa mesma época comecei a aplicar palestras e treinamentos internos para as empresas, clientes da consultoria que tinha aberto com 26 anos. E em seguida, cursos de extensão para profissionais. Aí o resto é história que muita gente já conhece.

Nessa vida de professor mais aprendi do que ensinei. E ainda sempre penso comigo quando inicio uma aula: é a chance da vida.

Escrito por : Marcelo Miyashita

Palestrante, professor, consultor e colunista na área de marketing. Desde 2015 faz parte do Hall da Fama da Academia Brasileira de Marketing.

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